Eva não escondia a felicidade em estar ali, saboreando aquele momento que pra ela era “um grande momentoâ€. Ela observava detalhadamente a filha enquanto gargalhava:
_ A filhinha querida do Mauro Peixoto está me cobrando satisfações por causa de uma história que ela acha que é mentira, mas não é. É a sua história, queira você ou não… Agora saia do meu quarto porque eu não quero continuar olhando para a sua cara…
Eva dirigiu-se a porta, abrindo-a e esperando que Debora se retirasse, mas ela não o fez para desgosto de sua mãe que bateu a porta abruptamente:
_ Você é mesmo uma figura deprimente… Depois de todos esses anos você ainda continua me culpando por não ter sido amada e desejada como você tanto queria… Ah! Faça isso mesma dona Eva, continue me culpando pelo seu fracasso enquanto mulher, enquanto esposa, enquanto pessoa… Não faz diferença nenhuma pra mim. Eu só não entendi porque você resolveu contar essa sua mentira para a Claudia agora… O que você pretende com isso? _ Afastá-la de você, acha mesmo que eu não percebi o que você está fazendo? Eu não vou deixar você estragar a vida da minha filha. Ela tem um casamento pra cuidar… _ Claro, a instituição familiar acima de tudo. Dane-se a felicidade da sua filha. Se você não é feliz porque ela pode ser, não é? Se você tem que suportar um casamento falido, fracassado porque ela vai ser diferente disso que você é? Sabe de uma coisa? Eu realmente fico feliz que você me odeie porque isso me mantêm a salvo de você…
Eva mudou rapidamente a sua expressão, rangeu os dentes e cerrou os punhos. Sentiu um enorme desejo de esmurrar a filha, mas se manteve distante. Respirou fundo e a encarou uma vez mais, vestindo uma calma atÃpica que não representava em nada o que estava sentindo realmente:
_ Eu nunca quis que você tivesse nascido, a minha vida era muito melhor antes de você, eu deveria ter inventado alguma desculpa para o seu pai, mas não. Você acabou salvando a droga do meu casamento. Então se eu ainda estou aqui vivendo das migalhas desse relacionamento a culpa é sua sim… Mas eu ainda vou ter muitas satisfações na minha vida porque eu ainda hei de ver você no chão, na sarjeta, sem nada, sem ninguém. Pode levar décadas, mas eu sei que isso vai acontecer… Eu vivo para assistir esse dia de camarote!
O sorriso nos lábios de Debora era humanamente insuportável e era preciso muita calma para não se perder diante daquela realidade perfeita que Debora parecia ser. Eva engolia seco e bem lá no fundo sentia vontade de cuspir naquela carinha que seguia exibindo um intenso brilho no olhar e aquele sorriso:
_ Engraçado dona Eva, eu ainda me lembro daquela manhã em que fomos ao escritório do papa e lá estava aquele homem… Como era mesmo o nome dele? _ Cale a boca Debora!
Mas o sorriso infernal reinou naquele face iluminada, ocupada agora pela sensação que a lembrança lhe causava para desespero de Eva que parecia refém daquela figura humana que ela tanto desprezava:
_ Inácio Junqueira. Era esse nome dele. Você me levou para a sala onde ele estava e disse “achei que você nunca fosse conhecer a meninaâ€. E ele me pegou no colo e olhou pra você com aquele olhar de descrédito e um sorriso repleto de ironia, mas antes dele te dizer qualquer coisa, o papa entrou e então ele foi sútil ao dizer “é muito graciosa a sua filha, espero um dia ter uma princesinha assim como a suaâ€. Mas não era para o papa que ele estava realmente dizendo isso, não é dona Eva? Você tentou o golpe mais antigo desse mundo, mas não funcionou… _ Porque nem pra isso você prestou! _ Sempre que eu olho pra você, eu me pergunto: “como ela foi capaz de usar uma criança de apenas quatro anos para conseguir o que queria?â€. Você foi muito baixa, muito suja… Como sempre, você só pensou em si mesma, no que você tanto queria, não é mesmo? _ Que eu tanto queria e que você tirou de mim…
Debora respirou fundo e lamentou profundamente porque aquela pessoa ali bem a sua frente era digna de pena. A cabeça movimentou-se de forma negativa como quem discorda de algo ao perceber que não há nada mais a ser dito, mas quando já estava com a mão junto a maçaneta, lembrou-se de algo importante e voltou a Eva uma vez mais:
_ Você sabia que o Inácio Junqueira se casou?
Não, ela não sabia e foi preciso muita força para se manter inabalável por aquela notÃcia que chegou em Eva como um duro golpe. Debora não iria dar a ela a informação que ela tanto desejava naquele momento, apenas saiu do quarto imersa nas lembranças que trazia consigo de uma certa festa de aniversário…
Trancada em seu quarto, Debora buscou a paisagem do lado de fora de sua janela, enquanto sua mente trazia de volta a dor que ela sentira diante da “verdade†apresentada a ela por sua mãe. Seus amiguinhos cantavam parabéns enquanto ela só fazia olhar para a figura do homem que ela amava, idolatrava e quem naquele momento havia deixado de ser seu pai. Antes de assoprar as velas, ela viu de soslaio a realização na face de Eva e isso a levou para seu quarto onde chorou durante a noite toda.
Mas a mentira contada por Eva durou pouco. Diante da apatia da filha, Mauro a levou com ele para o trabalho e lá estava Inácio Junqueira, o homem que segundo Eva seria o verdadeiro pai de Debora e pra quem ela olhava com descaso e de soslaio como quem odeia alguém apenas por saber de sua existência. Tal situação fora rapidamente percebida por Inácio:
_ Que olhar mais triste, o que há com você? _ Nada…
A resposta curta, rÃspida fez com que Inácio pressentisse o possÃvel motivo daquela tristeza e daquele olhar bravo e invocado que ela dirigia a ele, que optou por puxar uma cadeira e a colocou sentada bem próximo a ele. Ela evitava encará-lo como se tivesse medo de reconhecer um traço ou outro ali naquela estranha figura de homem:
_ Eu preciso te contar uma história que começa de forma triste e tem um final muito feliz, ao menos até agora. Então, quer ouvÃ-la?
Debora deu de ombros, não estava atenta a ele, a bem da verdade, desejava que ele sumisse ou quem sabe até nem existisse. Ela respirou fundo como quem desenha paciência em suas esferas:
_ Vou te contar então. Quando eu era criança, eu tive um problema de saúde e esse problema fez com que eu não pudesse ter filhos. Então quando eu conheci você, eu senti muita inveja do seu pai porque eu achava que nunca fosse ter essa felicidade…
Repentinamente a história ficara interessante. O brilho nos olhos da menina voltaram junto com o sorriso:
_ Eu pensava que nunca iria ter uma famÃlia, mas então eu conheci aquela moça linda que está conversando com o seu pai… Ela tinha perdido o marido em um acidente e tinha uma menininha linda com apenas seis meses e eu me apaixonei pelas duas… A gente se casou algum tempo depois e eu me tornei pai daquela princesinha que está no colo dela… Depois, a gente adotou um menininho e agora queremos mais um casal… Enfim, hoje eu já não sinto mais inveja do seu pai.
No rosto da pequena Debora sorrisos e lágrimas se confundiram momentaneamente e mesmo em silêncio, ela seria eternamente grata a dignidade daquele homem para com ela. Ali, diante da janela, Debora enxugou algumas lágrimas e sorriu ao lembrar do reencontro com Inácio anos depois – ele e sua famÃlia, a mulher Vanessa e os quatro filhos foram a sua Vernissage em Paris e ela o presenteou com uma peça intitulada “Renascence†que representava justamente a beleza de um ato e a admiração que surgiu a partir disso… O silêncio entre eles sempre haveria de existir, mas o sorriso que eles se permitiam a cada reencontro dizia muito mais que qualquer palavra…
>> continua…
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