Crédito da Imagem. Catarina Cardoso
Debora voltou ao Rio depois de sete anos distante – mas sua volta tinha um propósito, ela precisava confirmar o conteúdo daquela carta e só havia uma maneira de ter certeza que aqueles fatos eram verdadeiros…
Ela foi para Petrópolis acompanhada de uma equipe contratada por Eva que também foi até lá… A busca durou algumas horas, minutos infindáveis para quem busca acreditar com todas as forças que tudo não passa de um pesadelo do qual se pode acordar a qualquer momento… Em sua mente, as lembranças do sorriso nos lábios de Gean, a saudade do toque, do enlace, as carÃcias, a ânsia por se deixar pertencer a alguém sem restrições… Ela preferia acreditar que ele havia desistido dela, que estava em algum lugar e que um dia haveria uma justificativa absurda para ele não ter ido ao seu encontro no aeroporto…
Mas então o fim desenhou-se diante de seus olhos, um corpo foi retirado das águas daquele lago e o ar pareceu faltar-lhe naquele instante “não, por favor não†disse ela a si mesmo já se dirigindo para próximo do local onde estava sendo colocado o corpo… Mas Eva não permitiu:
_ Você não quer guardar essa imagem dele. Não é o homem que você conheceu que está lá Debora… Não faça isso com você… _ Você não entende, eu preciso ter certeza que é ele… _ Não, você não precisa porque bem lá no fundo você sabe. Ele não te deixaria esperando naquele aeroporto se algo assim não tivesse acontecido…
Debora interrompeu seu caminhar, voltando o olhar para sua mãe, sua pele exibia uma estranha forma de cansaço, faltava forças naqueles músculos desorientados. Lágrimas silenciosas percorriam a face anestesiada que exibiam claramente o sofrimento que havia ali naquele corpo…
Eva apenas abriu os braços para confortar a filha que desabou em seus ombros e ali ficou, aninhada por alguns segundos que pareciam ilustrar uma breve forma de eternidade:
_ Me diz o que eu faço Eva… Aquele desgraçado vai sair da cadeia e eu sei que ele irá atrás de mim. Eu sei disso. Eu juro que eu o mato se ele tentar fazer alguma coisa com os meus filhos… _ Não se preocupe com isso Debora. Ele não vai atrás de você, nem que seja a última coisa que eu faça na vida, eu não vou permitir isso. É uma promessa…
Eva acariciou o rosto exausto de sua filha e desejou em seu Ãntimo que todas aquelas coisas fossem diferentes. Ela faria qualquer coisa para não assistir todo aquele sofrimento desnecessário, absurdo pelo qual Debora estava passando, mas ao menos ela sabia que seria possÃvel ao menos evitar que fosse pior…
Debora respirou fundo na tentativa de recuperar um pouco de sua lucidez, afinal, o que sua mãe poderia fazer com relação aquele “ratoâ€? Por fim, Debora conversou com a pessoa responsável pela busca que lhe informou que seriam necessários exames para confirmar a identidade do corpo. O resultado dos exames demoraria alguns dias para sair e diante da constatação, ela voltou-se para o interior do chalé onde encontrou resquÃcios de sua própria história: a mochila cuidadosamente arrumada para viagem… Sua guitarra em pé ao lado da cama que na certa também seguiria com ele, sua velha jaqueta de couro que ele usou boa parte de sua vida, a maleta com a câmera fotográfica e um envelope onde estavam as fotografias que ele havia tirado de Debora naquele semana em que estiveram por ali e uma caixinha onde havia uma linda aliança que depois de ser cuidadosamente observada, foi colocada por ela em seu dedo:
_ Não faz isso Debora… Vamos embora daqui. _ Eu vou sim, mas isso tudo vai comigo… _ Você não precisa de nada disso! _ Essas coisas são a única lembrança que o Mateus e o Giani vão ter do pai deles, são eles quem devem decidir se querem ou não… Como a vida é irônica. Eu recusei três pedidos de casamento porque eu só tinha espaço pra arte na minha vida… _ Debora, minha filha, é isso que você é: uma artista! _ Não mãe, isso é que eu fui… Além do mais, eu teria dito sim a ele!
E ali, diante de Françoise que seguia espiando suas reações e aguardando por uma resposta, Debora respirou fundo ao voltar a si:
_ Eu nunca vou saber dizer o que eu senti naquele momento Françoise, parte de mim sabia, mas havia uma outra parte que se recusava a saber, então sempre houve a possibilidade de um engano… A carta que o George escreveu só serviu para uma coisa realmente e o mais engraçado é que ele achou que estava tirando algo de mim quando na verdade, ele estava me devolvendo o que ele havia tirado anos antes… _ Entendo… _ Eu vou ler o livro mais tarde, há uma coisa que eu comecei que eu preciso terminar… Desculpe-me… _ Imagina Debora, se alguém precisa se desculpar aqui, esse alguém sou eu. É que eu precisava perguntar ou passaria a minha vida toda esperando pela resposta que só você poderia me dar. Merci.
Debora se dirigiu ao seu atelier, onde dedicou-se a uma peça que estava entalhando há dias. Era um presente que tinha anos de atraso e que aos poucos começava a ganhar forma, traços, retas. Um desenho inusitado, que não exibia pressa alguma por existir.
E mais uma vez aconteceu uma interrupção, Mateus e Giani entraram silenciosamente no atelier e abraçaram a mãe que naquele dia completava seus sessenta anos, mas eles podiam interrompê-la a qualquer momento, sem aviso ou cerimônias:
_ Pensei que não viessem… _ Até parece, acha mesmo que a gente iria perder um momento desses? Além do mais, temos surpresas pra você… _ Eu começo a achar que eu deveria fazer sessenta anos mais vezes na vida! _ Duvido que você pense isso mama, afinal, não é você mesma quem diz que as coisas boas da vida a gente aproveita uma só vez para depois sentir o sabor pela eternidade a fora? Se eu não me engano, eu cresci ouvindo isso…
Giani estava cada vez mais parecido com seu pai, ele estudava música, tinha uma sensibilidade gostosa e estava enamorado por uma menina que era vocalista de uma das bandas para a qual ele tocava. A guitarra de Gean acabou ficando com ele, embora fosse pouco usada, ela permanecia em seu velho quarto que era para onde ele sempre voltava nas férias ou quando tinha tempo. Gostava de acomodar-se no sofá, deitando nas pernas de sua mãe enquanto ela acariciava seus cabelos até que ele adormecesse. Gean um dia havia feito isso…
Mateus herdara a câmera do pai, a levava consigo pra cima e pra baixo. Já havia feito milhares de fotos com ela e as vezes, mesmo de posse de equipamentos modernos, era com ela que ele fazia as melhores fotos.
Mateus e Giani levaram Debora para a sala onde estavam alguns amigos mais próximos que não iriam comemorar aquele momento em meio a tantos estranhos. Um pequeno bolo, velas, um sorriso pintado com ajuda de muitas mãos… O abraço de Dário, o mais demorado dentre todos… Um beijinho carinhoso de Antony… O olhar a distância de Eva que causou um sorriso ameno tÃpico do silêncio que existia entre elas… A surpresa de Suzanna que havia chegado há pouco na companhia de Eduardo, seu marido, Lucas, o irmão caçula de Debora que já estava bem mais alto que ela e HeloÃsa, a filha dela com Eduardo… Pierre entregou a ela algumas fotografias que não haviam sido selecionadas para o livro e ganhou uma breve carÃcia no rosto e de Françoise ganhou um olhar adocicado tÃpico de quem admira a mulher que ela havia “desenhado†nos últimos meses e um aperto de mãos de quem descobriu uma nova amiga nas entrelinhas de toda aquela história…
>> continua…
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